sábado, 19 de maio de 2012

A Mídia e Anarkia







Tenho defendido em vários blogues e espaços cibernéticos que a revista Carta Capital é notória no seu tratamento decente em relação às mulheres, não só (muito) superior ao da VEJA e ISTOÉ, como também ao de muitos blogues ditos progressistas (ditos porque, afinal, como alguém pode ser considerado progressista se é machista ou racista?). Mais uma comprovação para este fato veio há duas semanas, quando a Carta Capital trouxe a história de Anarkia Boladona, grafiteira feminista eleita pela revista Newsweek como uma das 150 mulheres mais influentes do mundo. 





Não é de se espantar que alguém que recebe tamanha projeção lá fora é tão pouco conhecida no Brasil? Pelo menos a Carta não deixou escapar.  Anarkia já compareceu ao blogue da querida comparsa blogueira feminista, Srta. BiaEm entrevista a um outro blogue, Anarkia explicou o que era mais satisfatório em todo o processo de desenvolvimento de seus trabalhos:"Eu ter certeza que posso quebrar os padrões e ir o mais longe que desejar sempre que quiser."  
Por conta de seu projeto de divulgação da lei Maria da Penha através da arte de rua Boladona apareceu na revista Marie Claire. Não sou muito familiarizada com a versão brasileira, mas a versão francesa da revista é, do segmento das revistas femininas, a mais feminista que conheço. Enquanto isto, na página de fofocas da revista VEJA, tem projeção mulheres seminuas a destilar nulidades pessoais. Valorizemos as revistas e os meios de comunicação que nos tratam dignamente e que projetam mulheres da causa feminista. 

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Algumas considerações sobre o blogue do Nassif

Nassif e o último episódio em balanço

Aproveitando a proximidade de uma postagem minha, questionando as fotos de imagens "sensuais" femininas no blogue do Nassif, quero fazer um apanhado do que considero a respeito do que se passa e se passou. 
Primeiramente, longe de ser uma inimiga de tal blogue, eu o visito com frequência, e ele até é minha fonte primeira de informações, dado que eu mais dificilmente visito páginas de jornais ou revistas. Considero as opiniões do Luís Nassif argutas em várias áreas, das quais se destacam política, economia e jornalismo. Compartilhamos algumas preocupações, como por exemplo a desindustrialização do Brasil, a guerra cambial entre os países, o combate ao complexo de vira-latas que muitos brasileiros ainda tem (porém graças a deus cada vez menos), o monitoramento de nossa elite política, entre outros. Seriam muitos pontos afins  para listar. E é por isso que eu ando por lá, e não no blogue do Noblat, por exemplo. 

Pedras no sapato

Porém eu observo que há duas pedras no sapato de um Nassif progressista e articulado.  Uma delas diz respeito às matérias sobre o Oriente Médio. Sob um pretenso manto de discursos esquerdistas sempre acabam-se destilando comentários antissemitas. Há o botão "denunciar", que infelizmente, parece que somente eu uso nestes casos. Em relação a este tópico eu esperaria do Nassif uma posição mais enérgica no sentido de deixar claro que o blogue dele não pode ser um espaço para discursos de ódio quaisquer. 
A segunda pedra no sapato diz respeito ao tratamento dado às mulheres, e em especial às feministas. Houve o episódio da "feminazi", do qual eu participei ativamente, inclusive aqui no blogue, denunciando que o Nassif "subiu", ou seja, colocou como tópico, um comentário de um certo André Araújo, que não diz coisa com coisa e que evocou o malfadado termo para designar as feministas. Isto foi feio da parte do Nassif. Este termo é marcadamente usado com o único e exclusivo fim de desqualificar a luta contra o machismo e as autoras desta luta. 
Como seria se o Nassif tivesse subido um comentário apologético à "ditadura gay", aos "negros nazistas" ou coisa semelhante? Chegamos aqui a um traço triste e recorrente de nossa sociedade. O fato de a luta de mulheres por igualdade de oportunidade, tratamento público e privado igual ao dos homens, luta por nossa dignidade, ter menos reconhecimento público e ser menos relevante, quer porque não se vê a opressão, quer porque se a julga legítima. 
No entanto, há dois dias, o Nassif subiu uma postagem minha, que é a imediatamente anterior à presente neste blogue. Houve quem dissesse que eu trabalhava com a hipótese de que ele não seria "subido", mas ele foi. Francamente, eu contava com uma boa chance para que ele fosse subido, como foi. Ponto para o Nassif, que pelo menos também passou a dar voz ao outro lado, o nosso.  Espero que o episódio "feminazi" e congêneres não venham a se repetir. O Nassif, talvez mais do que ninguém, sabe ou deveria saber que não é ingênuo o que se expõe para ser notado, o que se grifa, o que se promove.  

Nus masculinos são o cerne da questão?


Um detalhe do último caso se mostrou relevante. O Nassif publicou minhas fotos de ensaios sensuais de homens, porém sem minha legenda, que dizia algo como "para exercitar o olhar". Ou seja, sem a legenda, parece que eu só me importo que fotos de homens nus sejam publicadas, numa espécie de "guerrinha entre sexos". Não é o caso. O caso é o exercício do olhar. É nos perguntarmos porque em várias mídias, e em especial aquelas que o Nassif condena, exploram tanto o corpo da mulher, como acontece na página de citações de celebridade da VEJA, onde há invariavelmente fotos de mulheres seminuas comentando algo sobre sua sexualidade. Já chamei várias vezes a atenção pra a elegância com que a Carta Capital administra estes assuntos. Neste ponto tenho uma admiração inversamente proporcional do Mino do que eu tenho do Nassif. 
Além do mais, o Nassif resolveu dar o nome "os nus masculinos" ao meu comentário, o que mais uma vez mostra que ele "missed the point", equivocou-se quanto ao cerne da questão. Os nus masculinos eram parte da reflexão, mas não constituíam o cerne da questão de por que a esfera pública tem ares de vestiário masculino, e por meio de muitos mecanismos sugere sempre às mulheres que elas não são bem vindas. 

Balanço geral 

Como o Nassif, e provavelmente bastante induzido pela leitura dele, a maioria dos comentadores "missed the point". Isto é o esperado da nossa sociedade atual, mesmo que, lamentavelmente, também em blogues progressistas. Há, no entanto, uma aceitação e suporte das ideias por mim definidas, como se diz em alemão "klein aber fein", um grupo pequeno ,porém bacanérrimo. Não podemos nos calar e não vamos nos ausentar de espaços, nós, mulheres, gays, judeus e outros, porque subliminarmente, ou mais explicitamente, não somos bem-vindos por tantos. 


terça-feira, 17 de abril de 2012

Fotos "sensuais" no blogue do Nassif. Mais uma problematização.

Mais um pinto d'ouro para o blogue do Nassif.
Male gaze no blogue e o longo caminho a se trilhar. Este foi o título que dei à postagem abaixo, que postei no blogue do Luís Nassif, onde toda boa vontade para demover o mesmo da tradicional postura do machão latino na vida pública parece pouca. 
Ontem, dia 16 de abril, subiram com uma postagem intitulada "Cindy Crowford, a Gisele Bündchen dos anos 90". 
A postagem vinha repleta de imagens "sensuais", daquela sensualidade feita por homens, para homens e onde mulheres são objetos. Os comentários que se seguiram foram os esperados: Gisele é melhor por isto, Cindy por aquilo, e assim por diante. Para muitos (talvez a maioria dos homens e também uma minoria das mulheres?) estas fotos parecem singelas, acompanhadas de comentários também singelos. Mas não nos enganemos, porque não o são.
Como seria se eu postasse fotos sensuais de homens? Deixando entreve os pênis? E ainda mais, o que seria se o Gunter, na qualidade de homossexual, postasse fotos sensuais de homens? Todos se sentiriam confortáveis? Talvez para proteger seu sacro direito a dispor do corpo feminino em olhares e discursos, os homens fingissem não o ver. Quem sabe. Mas não é inocente esta miscelânia que faz convergir male gaze - o olhar masculino, e a esfera pública ou a mídia.
Um exemplo hors concours do que falo é a revista playboy. Quantas vezes já não ouvimos que fulano se interessa pela playboy por causa das entrevistas, das matérias?  Reza a lenda que eram realmente boas as matérias e entrevistas. Não posso dizer minha opinião pessoal, porque como mulher eu fui excluída desta esfera do debate público.  Assim como minha mãe estava excluida do bate-boca político que se dava e em parte ainda se dá na boca maldita de Curitiba, onde homens se reunem para falar de mulher e política, ou se quiser inverter a ordem, de política e de mulher. 
E até que ponto não estamos, aqui no blogue, reproduzindo esta lógica de esfera pública hostil às mulheres assim que lhes empresta o papel de seres olhados, e não olhantes? Como caça, mas jamais como caçador?
Antes que me acusem de puritana, o que vai inevitavelmente acontecer, já que deixar-se conduzir por uma ótica feminina é tão difícil para a maioria, deixe-me vacinar-me antes. Não é a sexualidade, dimensão fundamental do ser humano, que eu critico. É seu como, quando e para quem. São seus moldes patriarcais, tão manjados, mas tão reiterados. Travestidos de normalidade eles ensinam gerações qual é o lugar da mulher (no olhar masculino - padronizado pela indústria pornográfica em suas diversas formas), e onde é o lugar do homem : na esfera pública, debatendo com os seus iguais- aqueles do mesmo sexo que ele, e heterossexuais como ele. (A quem possa interessar, não o faço porque pode parecer auto-promoção, posso dar o endereço do meu blogue onde trato de uma sexualidade fora da "ordem mundial")
Eleger uma mulher presidente não é o fim de um processo. É o começo de um processo. De um caminho muito árduo que ainda tem que ser trilhado com fins à igualdade entre homens e mulheres, desde as aberrações mais evidentes que o patriarcado cria, como a mutilação genital feminina, a burca, a prostituição infantil, o estupro, até as coisas mais aparentemente triviais, como a desmiolada comparação entre fotos de Cindy CRowford e Gisele Bündchen.  
Vamos, agora, a uma prova de democracia. Vamos ver se o Luís Nassif sobe com esta postagem.

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Para ajudar a refletir. E se as seguintes fotos estivessem no blogue do Nassif?







quarta-feira, 11 de abril de 2012

A Fábula do Menino Pobre

  Chamo a história que relato de fábula, não porque ela seja mentira, mas porque a fábula é uma história de encantamento e desencantamento. 

   Ouvi de primeira mão, estes dias, a história do menino que era homossexual e pobre e entrou na UFPR para cursar sociais. A sexualidade do garoto em questão, lá pelos seus 18 anos, não criou, segundo o próprio, barreiras maiores para a inserção no grupo. Mas, quando colegas seus esbarraram nele, enquanto ele trabalhava em um supermercado como repositor, tudo mudou. A barreira se construiu. Justo no curso de ciências sociais, onde boa parte de nós sonhamos com a justiça social, onde o socialismo não é démodé. 
          A fábula me lembrou de uma conhecida que estudava o racismo francês do ponto de vista etiológico. O que é isto? Uma dada pessoa racionalmente é contra o racismo. E até consegue sustentar o seu anti-racismo por mais tempo no discurso (diferente do que acontece no Brasil, onde o comum é negar o racismo e se entregar na frase seguinte). Mas o corpo dela fala diferente do que a cabeça. Em contato com algum grupo alvo de racismo, como árabes argelinos ou negros, ela se inclina, ela gesticula alteradamente. O racismo profundo e de certa forma involuntário, pois é involuntário ao menos para a razão.
           Duvido muito que racionalmente alguém do curso de ciências sociais tenha desdenhado a personagem da nossa fábula. Mas há algo como uma etiologia de classe no nosso país. Onde menos controlamos, mais queremos. Um espelho de nossas diferenças cotidianas abissais. 

terça-feira, 3 de abril de 2012

Usos e abusos de Deus e do Divino


Espero desta postagem que ela seja herética para crentes e para ateus que vêem a crença como um delírio, na formulação de Richard Dawkins. 


Como milhares de brasileiros fui infectada pelo meme da família desafinada, vídeo considerado hilário por muitos . E como outros tantos, redescobri o original, um rock cristão da banda exodus: "Galhos secos".   Esta letra interessante me remeteu aos vários deuses que imaginamos, vários mesmo dentro do cristianismo, ou mesmo dentro de uma denominação específica. O deus desta canção é o deus criador, e mais do que isto, um deus criador da beleza. O deus cristão aglutina em sua personalidade esta faceta criadora, muitas vezes uma faceta bondosa e paterna, mas não obstante também apresenta volta e meia uma faceta rancorosa, raivosa e punidora. Há a faceta colérica de deus, que castiga maus atos e mesmo a falta de fé. Quando um ateu é castigado pela vida, normalmente há um crente que creia, ou até mesmo expresse, a opinião de que o mal se trata de uma vingança divina que é a resposta à descrença.  

Olhai os lírios do campo: eles cresceram, para nossa alegria

"Para a nossa alegria", diz o estribilho da canção. É providencial falar em flores para remeter à divindade. As flores são o símbolo da beleza produzida por uma força não-humana, diferente de um quadro ou de uma sinfonia, daí por uma força divina para os crentes. É um sentimento puro, de alento, pensar que a beleza foi criada única e exclusivamente para a nossa apreciação, ou como diz a letra "para nossa alegria".  

Beleza esta que, não houvéssemos nós, os humanos, não seria admirada por ninguém, pois por mais semelhanças que cada novo achado científico traz entre nós e em especial os chimpanzés, nossos companheiros em 99% da sequência genética, ainda não foi relatado nos mesmos o senso estético. Por maior que seja a continuidade biológica entre nós e eles, a apreciação da beleza se põe como uma barreira, nos torna discretos em relação uns aos outros: ficamos cada um no seu próprio patamar. Que, aliás, é como os criacionistas enxergam a fauna: como cada espécie tendo sido criada isolada das demais, pelas mãos de um deus que não põe a natureza em movimento, para evoluir, um deus este de tantos outros. 

A beleza tem sido explicada como um subproduto da evolução das espécies, em uma ideia que já foi apresentada pelo velho Darwin: de que o supérfluo existe para atrair o sexo oposto. Há o exemplo dos pássaros, onde geralmente é o macho o mais belo, quando há dimorfismo sexual. O que menos pessoas parecem deduzir é que, se o belo é o macho, a fêmea supostamente é a apreciadora, a poetisa. Será mesmo? Será que a pavoa aprecia a exuberância do pavão? Não conheço estudo neste sentido. Além do mais, a escolha do parceiro pela beleza não concatena muito bem com a teoria da evolução da espécie: pois torna-se um fim em si mesmo, no máximo ao escolher o parceiro mais belo, se terá mais descendentes belos, que por sua vez terão mais descendentes belos. A beleza pode ser de vantagem para a procriação (no caso de a pavoa poder de fato apreciá-la), mas para a sobrevivência estrito senso a penugem ostentatória do pavão não passa de uma  bela desvantagem. 

Estou bem longe de acreditar, assim como os criacionistas americanos, que os dinossauros sejam o  produto de uma farsa de uma ciência diabólica: eles nunca teriam existido e foram plantados nas escavações por pessoas litearalmente de má fé. Ainda assim, alguns argumentos criacionistas devem nos fazer pensar. O design inteligente é uma consideração interessante. A ele subjaz uma pergunta: não seria uma sequencia por demais estrondosa que acasos subsequentes levariam a formas tão complexas e inteligentes como aquelas materializadas pelos seres humanos? Que o acaso produza a vida, até onde se saiba, só na Terra, já faz pensar. Mas que as formas complexas que temos hoje sejam fruto de acasos faz pensar ainda mais. E ainda mais quando estas formas complexas vem embutidas com a ideia de beleza, que as remete à metafísica, que as faz únicas entre os animais como somos únicos os seres vivos dentre diversos planetas.

Do meu ponto de vista, embora isto seja humano, e demasiado humano, o espanto próprio à nossa espécie, diante da vida ou da beleza não tem de estar, necessariamente, ligado a uma série de prescrições que as religiões concebem para além da admiração pelo que é , de fato, admirável. Admirar-se com as formas complexas e inteligentes, para as religiões, está atrelado a concepções étnicas de vários graus, todas elas duvidosas em relação àquele espanto primevo. Porque talvez exista uma força criadora, então homossexuais não podem se casar entre si? A maioria das religiões faz deduções que são difíceis de serem sustentadas, quando se olha para a ciência, a história e principalmente quando se as compara entre si: por que o espanto inicial leva a deduções tão diferentes? Sinal de que as deduções e seus respectivos códigos de ética são aleatórios, embora a ânsia por elaboração e codificação seja um elemento em comum.

Tenho ouvido muito que os agnósticos seriam aqueles ateus que não conseguem se afirmar com todas as letras. Sei que a Associação de Ateus, a Ateia, fomenta esta versão dos fatos. Embora este possa ser o caso de alguns agnósticos, considero o agnosticismo um simpatizante do misticismo: há algo ali, que não está bem claro, e ambas as respostas, religiosa e científica, não me parecem perfeitamente coerentes para explicar beleza, complexidade, leis científicas, leis humanas, e também imperfeições e mistérios nestes leis. Agnósticos, do meu ponto de vista, curvam-se com humildade frente àquilo que os crentes laicos e religiosos, convencidos da inescapabilidade de suas leis, seculares ou sacras, veem com empáfia. Creem no divino como mistério, sem necessariamente crer em um deus, uma força única, uma existência que contemple tudo, que seja ora bondosa, ora maléfica; ora onipotente, ora desafiada por um demônio antagônico. Agnósticos curvam-se ao ainda não desvendado, e rejeitam as empreitadas totalizantes, alimentados por dúvidas que são, elas mesmas, belas e mais perenes do que suas respostas, que estão em eterna mutação ao longo da história humana. 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

FoWL- chegou a rede do wikileaks





Segue abaixo minha tradução do artigo do Der Spiegel

Hamburgo- Wikileaks batalha em vários fronts nestes dias. Em Londres o seu fundador, Julian Assange se protege contra sua extradição para a Suécia, que aliás nada tem a ver com revelações, mas com a acusação de abuso sexual. Em Fort Meade, Maryland, acontece desde sábado a audiência na qual deverá ser decidido se Bradley Manning, supostamente a fonte de grandes revelações da inteligência secreta estadunidense, será julgado em um tribunal de guerra. Já há algum tempo wikileaks está com falta de dinheiro e uma nova forma segura de angariar fundos para novos vazamentos ainda não está encaminhada. Os “spy flies” recentemente divulgados sobre as práticas e produtos do ramo da segurança internacional são antes um dossiê do que revelações em sentido estrito.

Um pouco mais de apoio cairia bem. De fato existem muitas pessoas ao redor do mundo que nutrem simpatia pelo wikileaks. Wikileaks quer agora conectar a sua base, com uma rede social. “Friends of Wikileaks” é o nome dado à rede, abreviada por FoWL. De seu manifesto de fundação:”Desde a sua criação, muitos grupos de apoio tem surgido. Elas se formaram sem interconexão global e apenas uma pequena fração das pessoas que apoiam o wikileaks acharam um caminho para defendê-lo de forma pragmática. FoWL vai conectar estas pessoas para que surjam sinergias e que possamos trabalhar juntos de forma produtiva e eficiente.”

Também entra aí a questão do financiamento. Quem se registra já é logo instado a doar e também a participar da organização de manifestações ou de tarefas públicas. Cada simpatizante que se junta à rede deve ser conectado a seis outros ao redor do globo com os quais pode se comunicar. Já no registro o usuário indica quais línguas ele fala. Estes círculos de doze simpatizantes são pensados para resultar numa estrutura estável de células de apoiadores.

A princípio é possível registrar-se e não fazer nada além disto. Então se é avisado quando há mais registros, para que possam ser distribuídos amigos; é o que se lê quando do procedimento de registro. A saudação desta rede por enquanto apenas virtual termina com as seguintes palavras: “com um cordial abraço, Julian Assange”. Não está parecendo que o fundador da plataforma queira abdicar de seu papel no wikileaks por causa de problemas jurídicos. 

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Feira Preta, a imigração e a escravidão

Neste final de semana acontecerá a décima edição da Feira Preta no centro de exposições Imigrantes na capital paulista. Pela divulgação do evento a princípio os idealizadores tem um viés bem comercial: dá para fazer dinheiro se direcionando à "nova classe média", ou seja, a classe C, que segundo Marcio Pochmann, presidente do IPEA, é apenas um segmento de novos empregados do setor de serviços, e não é como a clássica e ainda atual classe média, composta por dentistas, advogados, professores universitários, etc., majoritariamente branca em um país de mulatos e mestiços. 
Apesar de não ser o ideal, acredito que o viés comercial não deva ser alvo de críticas. Interessante a coincidência de o evento ser sediado no centro de exposições imigrantes, porque insere a população negra e afrodescendente no contexto dos imigrantes. A história da escravidão, que trouxe negros das mais diversas etnias para cá nunca será igual a da imigração de gente que já veio com uma nacionalidade definida quando a África ainda era uma grande possessão europeia dividida em colônias. As condições de inserção de africanos e europeus no Brasil é tão diferente que é difícil achar um patamar comum para igualar ambos. 
Embora muitos imigrantes tenham vindo para substituir a mão-de-obra escrava nos cafezais do Brasil, como foi o caso de suíços, italianos e japoneses, e com isto provaram o gostinho do que é a herança escravocrata, de violência e coisificação, em geral as condições de inserção possibilitaram a ascensão social, se não de todo o grupo, mas de parte substancial dele. É por isso que a classe média hoje é tão italiana, espanhola e japonesa em São Paulo, e tão alemã também no Sul do Brasil. 
Não quer dizer que estas pessoas tenham tido trajetórias fáceis de ascensão. Havia, claro, os que já chagavam com uma profissão demandada por um país de capitalismo nascente, e que portanto obtiveram refúgio no Brasil para continuar a ocupar a classe média ainda que em outro continente. E houve também aqueles que amargaram perdas humanas, morreram estupidamente de doenças tropicais antes não conhecidas trabalhando numa lavoura de patrões ex-escravocratas ou em condições pré-capitalistas. Teve gente que, antes de se inserir ou reinserir regrediu de posição: conhecia da Europa água encanada, luz elétrica e educação e teve de aprender por um período a viver sem tudo isto que já parecia certo. 


Quanto aos escravos, em geral não foram utilizados nas mesmas fazendas que se tornaram capitalistas, empregando a mão-de-obra imigrante. Dispersaram-se, portanto, vivendo em grande parte à margem do Estado e do mercado. E a este vieram a se incorporar muito depois, como último recurso do exército industrial de reserva. 
Diferente dos imigrantes, suas referências culturais sofreram uma grandíssima pressão. A cultura negra brasileira e americana é uma miscelânea daquilo que cada contingente com sua origem própria trouxe. As rupturas já radicais que os imigrantes sofreram, foram muito mais radicais para os negros. As agressões, privações e autoritarismos que os imigrantes sofreram foram muito mais radicais para os escravos. 

O pintor Portinari, branco,
representa os negros em suas obras
Durante as décadas passadas, eram muito comuns os festivais de imigrantes onde sua presença era maciça, como em São Paulo e no Sul do Brasil. Em Curitiba encontravam-se todos, onde exibiam danças, culinária e outras atrações consideradas típicas. Os negros estavam excluídos destas apresentações. Afinal, não havia a percepção de que o negro tinha algo positivo a mostrar ou do que se orgulhar, nem a que fazer referência. A cultura negra esteve sempre subalterna. 

Iniciativas como as várias semanas da consciência negra, de politização da questão racial ainda tão presente no Brasil, são fundamentais. Mas eventos mais mercadológicos contribuem no sentido de tirar a cultura negra do gueto nos termos da nossa sociedade atual, que funciona em grande parte mercado- logicamente. 

A experiência histórica de imigração e escravidão nunca será igual. Não é possível mexer no passado. Mas é possível criar uma base comum de trocas e reconhecimento do valor negro para a constituição a unicidade do Brasil e de cada um dos nossos rincões. Festivais negros, aconteçam, cresçam e atraiam gente de todo tipo. Um passo para consertar um pouco o desnivelamento histórico e reconhecimento atual das experiências de imigração e escravidão. 

Poderá também gostar de: O reitor e os quilombolas 

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

o Gato do Rabino

LE CHAT DU RABBIN



O Gato do Rabino, que ainda não saiu no Brasil, já virou filme na França. Neste ritmo, o filme sai aqui antes dos deliciosos quadrinhos de Joan Sfar. 
O gato do rabino, que não tem nome além deste mesmo, comeu o papagaio de seus donos e com isto passou a papagaiar, digo, a falar. O gato falante nasce muito humanamente: cheio de certezas para cima do bom rabino de uma aldeia no Magreb. 
Embora a tônica não seja sempre esta, as aventuras do gato discutem com leveza questões de crença, fé, ceticismo e religião. Até onde eu conheço, algo inédito na linguagem dos quadrinhos. E, sinceramente? O melhor jeito que tenho encontrado de discussão para estes assuntos, onde não faltam gatos convencidos. O gato do rabino vive em meio aos dilemas da fé e do ceticismo, com os altos de baixos de cada um. Quando tiver a oportunidade, leia. Quando tivermos a oportunidade, vejamos o filme, para comprovar se é tão bom quanto os quadrinhos nos quais se baseia. É nada menos o que se espera do Joan Sfar, um expoente da sua geração. 




O filme versa justamente sobre o único tomo que me falta na coleção ainda
 "Jerusalem d'Afrique". Abaixo o trailer. 


terça-feira, 22 de novembro de 2011

amigo secreto e o ato de presentear




Para o espanto de muitos e a indignação de outros, as ruas e lojas já se vestiram com as roupas de inverno do nosso natal importado. Tempo de amigo secreto também. Considero o amigo secreto um mecanismo engenhoso, dado que dispensa as pessoas de terem de presentear a todos, ou a deixar alguns de fora, o que deixa a todos entre grandes despesas e grandes constrangimentos. Também engenhoso o elemento da surpresa, quando não há trapaças, claro.
Só não entendo o amigo secreto que vem com a lista de "sugestões" de presente, segundo o presenteado. A lista de sugestões nos salva de micos, claro. De presentes totalmente despropositados. Mas livra também da surpresa e abole o interessante jogo que é presentear e ser presenteado justamente por aquele elemento da família/ amigos com o qual menos se tem afinidades. A lista de presentes é praticamente tão chata e antissocial quanto ir ao shopping sozinho se comprar o tal do objeto almejado.


Com efeitos colaterais na minha opinião piores do que as dores que pretende curar, a lista de sugestões nos lembra de que presentear é um dom. Como todo dom, ele está distribuído de forma completamente disforme sobre o globo. Uns demonstram extrema habilidade, enquanto outros...



Em geral presenteamos a partir das ideias pré-concebidas que temos dos outros. Fulano é esportista (penso), portanto (penso) ele irá gostar de uma jabulani (penso). Cicrana é perua (penso), portanto (penso), irá gostar de uma bolsa de oncinha. Ela gosta de ler (penso), portanto (penso), ela gostará de um livro. Há atletas que detestam futebol e peruas que talvez dispensem uma bolsa de oncinha (talvez por já ter várias, rs). E há pessoas, como muá, que gostam de ler e também de selecionar bem o que leem...

O fato é que em termos de presentificação é muito comum chutar a bola para fora do estádio. O preço médio que estamos dispostos a pagar piora um pouco nossas chances de ao menos chutar na trave. Mesmo assim, sou a favor de insistir na presentificação que insiste em treinar, desafiar esta habilidade de presentear nas pessoas. Acho que isto nos traz mais para perto das discrepâncias de percepção que existem em nosso meio. E é claro, uma chance em cem, de alguém que nos conheça melhor do que nós mesmos, que nos desafie com algo que não sabíamos de que poderíamos gostar.


Tenho uma política pessoal de presentear. Cumpro com minhas obrigações rituais de final de ano, com boa vontade, mas no resto do tempo não presenteio - nem para aniversário, dias dos pais, etc. (Ensinaram-me quando criança que isto era consumista, e eu acreditei.) 
A não ser que... eu encontre algo que me lembre certa pessoa. Aí, totalmente fora de época, eu lhe dou o dito objeto, por mais simples que seja. Tudo bem, eu poderia esperar as datas festivas, mas com isto um pouco da espontaneidade daquele ato se iria. 

Esta postagem foi bem dentro do paradigma consumista. Mas pretendo escrever uma que mexa mais com isto. Se bem que a espontaneidade do ato de presentear, nem mastercard não paga.

Poderá também gostar desta outra postagem, sobre dia das crianças

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A feiura das línguas e o habitus autoritário

Trabalhando há alguns anos com a língua alemã, percebo que há bastante gente que já chega para ter aula influenciada pela imagem da nova Alemanha, que o Estado alemão procura tanto, e inclusive com bons meios financeiros, incutir aos seus cidadãos e transmitir ao mundo. 
Mesmo assim, sempre aparecem também alunos - de idades variadas - com aquela ideia da velha Alemanha, principalmente a velha Alemanha do nacional-socialismo, na maior parte das vezes mediada por Hollywood. 

Alemão seria uma língua agressiva e feia, dizem muitos - outros apenas pensam. 




Se, em primeira linha, o vídeo acima serve como exemplo de língua alemã, então só posso concordar: o discurso deste homem é feio, grosseiro e agressivo.
(Observação: há um forte ruído do microfone nesta transmissão, o som não está límpido.)
Agora, português parece uma língua cantada, afável,doce e lírica na voz desta homem?
Reparem no final. 



         Habitus fascista pode existir em qualquer língua. O amor e o lirismo podem ser cantados em qualquer língua. Conservemos a beleza de nossa língua. Exploremos sua potencialidade, diminuamos os ímpetos autoritários e fascistas que se apossam dela. 

sábado, 12 de novembro de 2011

O reitor e os quilombolas

        Estive nesta semana na XXVIII Semana de História da Unesp, no campus de Assis. Cheguei meio atordoada da viagem na quarta-feira, mas ainda a tempo de ver a fala do Prof. Oseias Oliveira da Unicentro - Universidade do Centro-Oeste-, que tem prédios em Irati, Guarapuava e mais 4 campi avançados, no Paraná. O tema de Oseias era a festa de São Gonçalo, uma prática que os quilombolas deixaram por uma época, e retomaram depois quando conseguiram se re-estabelecer no meio rural.   
         Interessante mesmo foi a contextualização das comunidades quilombolas em meio à "macha branca", uma série de colônias ucranianas, polonesas, alemãs, italianas, etc. O interesse do professor surgiu por meio de uma aluna quilombola em seu curso, a única negra da faculdade. (Isto me lembra minha infância, onde em um colégio de 3 mil alunos havia apenas 1 aluno negro, que naturalmente destoava muito do resto).
        A presença desta única aluna mobilizou professores de diversas áreas da universidade para formar um cursinho para os quilombolas próximos ao campus. É um privilégio para eles terem professores da universidade já durante a preparação para a mesma. O detalhe bonito e significativo é que o reitor, Vitor Hugo Zanetti, também entendeu a importância do projeto, e dá aulas de matemática aos sábados na comunidade. 
     
           Existe um lugar neste país onde um reitor doa seus sábados para dar aula gratuitamente aos quilombolas. Tem iniciativas que me deixam simplesmente enternecida. Em breve aquela uma aluna não estará mais só, e haverá muitos outros como ela.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

il vero universal e o selo de qualidade feminista

Como bem sabemos, quando o "cidadão brasileiro de bem" - sabe aquele que supostamente paga os impostos, que troca de carro regularmente e vai lustrar sua cultura nos EUA ou na melhor das hipóteses em Paris- aparece na capa da revista VEJA, ele é um homem branco. Para a VEJA que universal e masculino se confundam é um óbvio ululante.

Isto é tão banal e repetitivo que seria um saco demonstrar.
Vale a pena, no entanto, estar atento a iniciativas ainda isoladas que trazem mulhees como possíveis universais, sem que isto evoque o seu sexo. Universal sem sexualização, é o que vemos abaixo, quando o cartunista Carlos Latuff desenha umA estudante como representante d@s estudantes que ocuparam a reitoria da USP.

Esta é fresquinha, saída do forno hoje


Esta é de fevereiro de 2011





Neste contexto árabe que o nome Latuff evoca, lembrei-me de outra situação que merece menção honrosa. Isto foi lá no começo da Primavera Árabe, e a Carta Capital nos apareceu com esta mulher à esquerda. Além de sublinhar o novo ou renovado protagonismo feminino no Oriente Médio, a revista apresentou uma mulher como representante 
"d@ manifestante da praça Tahrir".





                                                    Qual é o verdadeiro universal?


É quando um representante da espécie humana - para qualquer fim: científico, jornalístico, estatístico-  puder ser uma mulher, negra e idosa, e ela ser reconhecida como tal. 
É quando além de representar o universal, o homem branco, heterossexual também seja visto também como algo particular. 
Por seus méritos, selo de qualidade feminista a ambos, Carlos Latuff e Carta Capital.  

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Tempo e história

Tristes daqueles que temos história.
Buscamos por aquilo que apenas os outros deveras têm.
Pois viver o tempo presente é viver o tempo eterno.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Semana da Consciência Negra em Curitiba

       Há algum tempo eu escrevia sobre como foi a panfletagem para o concurso Beleza Negra de Palmares, a ser realizado no próximo dia 05 de novembro. O início do evento é às 21:30h, na sociedade Universal, e promete ir até às 5h da manhã. O traje sugerido é esporte fino e o preço do convite é vintão
      Ainda é só comecinho de novembro, mas o concurso já integra a Semana da Consciência Negra, que ocorre todo ano próxima à data comemorativa de morte do líder negro Zumbi dos Palmares, o dia 20 de novembro, tornado o Dia da Consciência Negra. 

Semana da Consciência Negra

   


 Como no blog da semana eu não achei a programação, seguem abaixo as informações transcritas, tal como no cartaz. 








16/11 TEATRO JOSÉ MARIA SANTOS
           20H Espetáculo Memórias de Maria
           Grupo Raiz

17/11  TEATRO JOSÉ MARIA SANTOS
            19h Espetáculo Senzala
            Companhia de dança Pedro Quintino
            20h Espetáculo - Grupo de Teatro Madame Vós - regina Corcini

18/11  TEATRO JOSÉ MARIA SANTOS
            19h Espetáculo Grupo Setembrina
            Rede Mulheres Negras
            20h Espetáculo PALMARES

18/11   AUDITÓRIO MINI-GUAÍRA
            19h Espetáculo Senzala
            Companhia de dança Pedro Quintino
            20h Espetáculo O Varal - várias peças e muitas lembranças
            Grupo de dança Afro Pop Ginga Total

19/11   BOCA MALDITA
             9h Apresentações Culturais e desfile Afro
             TEATRO JOSÉ MARIA SANTOS
             18h Espetáculo O Varal - várias peças e muitas lembranças
             Grupo de dança Afro Pop Ginga Total
             19h Espetáculo A Flor da Identidade
             Grupo Flor do Baobá
             20h Espetáculo Tina Music

20/11    TEATRO JOSÉ MARIA SANTOS
             14h Espetáculo A Flor da Identidade
             15h30 Espetáculo - Grupo de Dança Oludum 'Baye
             17h Espetáculo DSTR
             Grupo Ka-Naombo
             18h30 Show Revolusom Africa na mente
             Grupo de rap Consciência Suburbana 
             20h Espetáculo Randakpalobaoba "A busca da semente"
             Grupo de teatro Nus Partus

20/11    AUDITÓRIO MINI-GUAÍRA
              15h Show Revolusom África na mente
              Grupo de rap Consciência Suburbana 
              Espetáculo Randakpalobaoba "A busca da semente"
              Grupo de teatro Nus Partus
              20h Espetáculo Tina Music
              


Haverá outros eventos não ligados à ACNAP, mas ligados ao Centro Cultural humaita. 

Segue programação:
18/11/2011
9h Orirerê - Cabeças iluminadas, Assembleia Legislativa do Paraná
18h- Aulão de dança afro, praça Santos Andrade

19/11/2011 
8h30 Seminário de dança afro, Teatro Londrina, memorial de Curitiba
15h Afoxé- o poder da palavra, Teatro Londrina
16h- oficina toques, cantigas de afoxé, Teatro Londrina

20/11/2011
9h30 culto inter-religioso, Igreja do Rosário
10h30 lavação das escadarias da Igreja Nossa Senhora do Rosário, seguida de cortejo de Afoxé até o Pelourinho de Curitiba, passando pelas gameleiras sagradas

Mais informações sobre estas últimas:
informativohumaita.wordpress.com

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Pôs o tênis no meio-fio: é puta!

Sou mulher. Quando saio para a rua, saio para uma guerra. Não posso ouvir meus pensamentos, porque ouço buzinas estridentes. Recomendam-me não responder. 
Estes dias resolvi sair de saia. É como se eu estivesse pelada. Gritos, buzinadas longas. Ao andar pela calçada, ao esperar no ponto de ônibus. Pus o tênis no meio fio? Estou pelada e sou puta. A puta clama pelo abuso. Rogo por uma grosseria. Suplico - não me deixem em paz! Não me deixem pensar no meu caminho ou nos meus afazeres. Violentem os meus ouvidos. Ainda não desceram do carro para violentar outros orifícios. Mas o aviso está lá: olha, que eu violento os seus ouvidos. Às vezes o som da buzina se define numa mensagem. O tema é minha buceta, meu traseiro, minhas coxas, os apetrechos que a puta aqui usa para ir de um lugar ao outro, num dia de verão, de tênis e saia. 


Meus algozes voam rápido, eles se repetem. São tantos e é o mesmo. Nunca falei com um deles. Fora do carro, longe da velocidade e do anonimato, ninguém faz isto. É todo dia violência, mas de saia, é insuportável. Não estou me insinuando. Estou com calor. Tenho um trajeto claro e firme pela frente. Vou à biblioteca. Mas sou a puta, a violável, que ousou pôr uma saia, com um tênis, para andar rápido. Lembram-me disso, de 20 a 30 vezes durante a minha caminhada. E pôr o tênis no meio-fio? É levar uma saraivada.

Quando dou de acordar muito feminista militante, eu visto uma saia.
E saio com ela para a guerra. 


segunda-feira, 24 de outubro de 2011

quem doa, quem frui?

Ilustração de Michael Zichy

Tirei esta ilustração de Michel Zichy daqui


Amei. 


O pênis está lá, ereto. Mas ele não passa de um figurante. Quem sabe depois?

Tem uma doação e uma fruição ali, estas estão no centro do tema. 
Quem doa e quem frui? Depende do ponto de vista. A língua come a vulva. A vulva come, com sua língua e seus lábios, a língua e os lábios. Nada mais do que um beijo. Ambos fruem, o "comer" e o "ser comido". 


Sexo é doação e fruição mútua.


 Homem "dá". Mulher "come". Mulher "dá". Homem "come". 

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

colonialismo mental na academia brasileira

Já cantava Bob Marley:
"Emancipate yourselves from mental slavery..."


O modelo para a academia brasileira é a Europa. Ontem ouvi isto de um professor da Federal do Paraná. Não coloco em questão a pessoa que falou isto, que pode ser uma boa pessoa, mas a mentalidade. A ideia surgiu em meio a uma conversa sobre o intercâmbio que a UFPR tem com a universidade de Lyon. O professor argumentava que o modelo acadêmico brasileiro estaria defasado em relação ao europeu. Que a tendência "mundial" (ou seja, do centro do capitalismo) é esta: o mestrado não vale mais nada, e o doutorado fica cada vez mais curto. O mestrado não é uma pesquisa independente, é só uma preparação para o doutorado. O modelo brasileiro estaria "defasado"? CNPq e Fapesp tem diminuído muito os nossos prazos. Estão atentos ao que acontece lá, no Primeiríssimo mundo, aquele que tem um Berlusconi e um Obama que captura ex-aliados tal e qual fez George W. Bush. 

"Nós não podemos ficar para trás" - "nossa referência é a Europa". Particularmente, eu fico estupefata que ninguém tenha se perguntado qual é o NOSSO interesse. Nosso interesse é automaticamente se adequar a um padrão externo. Digamos que nós erigíssemos um sistema acadêmico que fizesse sentido para nós, adequasse-se aos objetivos que nós mesmos estabelecemos, tanto no que diz respeito à ciência que queremos produzir, quanto ao país que queremos produzir. Mas isto traria uma certa inadequação aos parâmetro exteriores. Talvez perdêssemos um ano para conseguir fazer um sanduíche na Europa, talvez dois. Esta perda é mesmo uma catástrofe? Não é melhor ir para a Europa ciente do que aquela experiência deve agregar para nossos propósitos? O que falar das relações Sul-Sul? Propaga-se aos quatro cantos que o Brasil está mudando, que o mundo, talvez, esteja mudando. Mas nossos referenciais ainda parecem fixados no século XIX, quando ninguém duvidava que a ciência e o conhecimento tinha uma única fonte: a Europa. Produzir conhecimento nos trópicos era abrir uma sucursal europeia abaixo do Equador. 

Dou outros exemplos. Já faz anos que eu combato a ideia de que, para ingressar no doutorado em antropologia no Museu nacional, na Unicamp ou na USP, são necessárias "duas línguas estrangeiras". Mas não são quaisquer línguas estrangeiras. São inglês e francês. O aluno que se deu ao trabalho de aprender árabe, guarani ou xhosa  tem menos valor do que aquele que aprendeu as línguas do cânone da ciência sucursal. Aliás, não tem valor, porque esta habilidade, que apresenta muitíssimo mais dificuldades, não é levada em conta. No entanto, o que seria mais "antropológico"? Francês ou guarani? O que seria mais "antropológico": todos dominarem inglês e francês, ou uns dominarem guarani, outros xhosa, outros árabe? Não quero com isto defender que nós nos isolemos da produção mundial. Mas não quero que nos isolemos da produção mundial, que não é a produção euro-americana (né?). Supostamente é na antropologia que mais se tem conhecimento de que a língua é um fator de poder. A contradição passeia por aí, vistosa, mas ao mesmo tempo parece invisível. Ela está naturalizada, mesmo entre aqueles que se atribuem a tarefa de desnaturalizar aquilo que é produto das relações humanas. Eu sempre estive isolada defendendo o meu posicionamento. 

Como eu gosto de ter uma interlocução com a História, fui me inscrever na XXVIII Semana da História sediada no campus de Assis da Unesp. Aproveitei para dar uma olhada nos tópicos que serão discutidos. Temos um tópico em Idade Média - europeia, bem entendido, porque aqui o que houve é outra coisa. Aqui houve "descobrimento" de uns pelos outros. Não é que me incomode que alguém estude a Idade Média europeia. Mas é o desbalanço. Um grupo de trabalho destinado a isto. Implicitamente a Idade Média é mais nossa história do que o são os povos indígenas brasileiros, porque ainda é difícil que a História brasileira incorpore este tema. Ahh, mas este tema não pertence a História clássica, isto deixamos aos antropólogos. Não pertence à história clássica europeia, que desenvolveu os seus métodos para se entender! Se nossa situação é diferente, nossa história deve ser diferente! Ela deve ter um diálogo mais profundo com a antropologia. Alteridade é um fator, talvez o fator, mais relevante da história deste País. 



A questão toda faz a trajetória de um ciclo vicioso. Não entendemos "outras línguas" (não europeias) como relevantes, nos vemos responsáveis mais por história europeia do que por história brasileira. E portanto, não conseguimos definir objetivos próprios, pois tomamos os objetivos alheios como os nossos. Como não temos objetivos próprios, continuamos a achar normal que a Europa seja nossa referência acadêmica, em termos de línguas, tempo, formação, intercâmbios, temas. 

Obviamente este tema não aparece da primeira vez no Brasil. Como eu poderia esquecer de Darcy Ribeiro e Celso Furtado, entre outros? Mas há muito ainda para ser feito. Muito. 
Encontrar-se a si mesmo é tarefa para gerações.