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quinta-feira, 19 de abril de 2012

Algumas considerações sobre o blogue do Nassif

Nassif e o último episódio em balanço

Aproveitando a proximidade de uma postagem minha, questionando as fotos de imagens "sensuais" femininas no blogue do Nassif, quero fazer um apanhado do que considero a respeito do que se passa e se passou. 
Primeiramente, longe de ser uma inimiga de tal blogue, eu o visito com frequência, e ele até é minha fonte primeira de informações, dado que eu mais dificilmente visito páginas de jornais ou revistas. Considero as opiniões do Luís Nassif argutas em várias áreas, das quais se destacam política, economia e jornalismo. Compartilhamos algumas preocupações, como por exemplo a desindustrialização do Brasil, a guerra cambial entre os países, o combate ao complexo de vira-latas que muitos brasileiros ainda tem (porém graças a deus cada vez menos), o monitoramento de nossa elite política, entre outros. Seriam muitos pontos afins  para listar. E é por isso que eu ando por lá, e não no blogue do Noblat, por exemplo. 

Pedras no sapato

Porém eu observo que há duas pedras no sapato de um Nassif progressista e articulado.  Uma delas diz respeito às matérias sobre o Oriente Médio. Sob um pretenso manto de discursos esquerdistas sempre acabam-se destilando comentários antissemitas. Há o botão "denunciar", que infelizmente, parece que somente eu uso nestes casos. Em relação a este tópico eu esperaria do Nassif uma posição mais enérgica no sentido de deixar claro que o blogue dele não pode ser um espaço para discursos de ódio quaisquer. 
A segunda pedra no sapato diz respeito ao tratamento dado às mulheres, e em especial às feministas. Houve o episódio da "feminazi", do qual eu participei ativamente, inclusive aqui no blogue, denunciando que o Nassif "subiu", ou seja, colocou como tópico, um comentário de um certo André Araújo, que não diz coisa com coisa e que evocou o malfadado termo para designar as feministas. Isto foi feio da parte do Nassif. Este termo é marcadamente usado com o único e exclusivo fim de desqualificar a luta contra o machismo e as autoras desta luta. 
Como seria se o Nassif tivesse subido um comentário apologético à "ditadura gay", aos "negros nazistas" ou coisa semelhante? Chegamos aqui a um traço triste e recorrente de nossa sociedade. O fato de a luta de mulheres por igualdade de oportunidade, tratamento público e privado igual ao dos homens, luta por nossa dignidade, ter menos reconhecimento público e ser menos relevante, quer porque não se vê a opressão, quer porque se a julga legítima. 
No entanto, há dois dias, o Nassif subiu uma postagem minha, que é a imediatamente anterior à presente neste blogue. Houve quem dissesse que eu trabalhava com a hipótese de que ele não seria "subido", mas ele foi. Francamente, eu contava com uma boa chance para que ele fosse subido, como foi. Ponto para o Nassif, que pelo menos também passou a dar voz ao outro lado, o nosso.  Espero que o episódio "feminazi" e congêneres não venham a se repetir. O Nassif, talvez mais do que ninguém, sabe ou deveria saber que não é ingênuo o que se expõe para ser notado, o que se grifa, o que se promove.  

Nus masculinos são o cerne da questão?


Um detalhe do último caso se mostrou relevante. O Nassif publicou minhas fotos de ensaios sensuais de homens, porém sem minha legenda, que dizia algo como "para exercitar o olhar". Ou seja, sem a legenda, parece que eu só me importo que fotos de homens nus sejam publicadas, numa espécie de "guerrinha entre sexos". Não é o caso. O caso é o exercício do olhar. É nos perguntarmos porque em várias mídias, e em especial aquelas que o Nassif condena, exploram tanto o corpo da mulher, como acontece na página de citações de celebridade da VEJA, onde há invariavelmente fotos de mulheres seminuas comentando algo sobre sua sexualidade. Já chamei várias vezes a atenção pra a elegância com que a Carta Capital administra estes assuntos. Neste ponto tenho uma admiração inversamente proporcional do Mino do que eu tenho do Nassif. 
Além do mais, o Nassif resolveu dar o nome "os nus masculinos" ao meu comentário, o que mais uma vez mostra que ele "missed the point", equivocou-se quanto ao cerne da questão. Os nus masculinos eram parte da reflexão, mas não constituíam o cerne da questão de por que a esfera pública tem ares de vestiário masculino, e por meio de muitos mecanismos sugere sempre às mulheres que elas não são bem vindas. 

Balanço geral 

Como o Nassif, e provavelmente bastante induzido pela leitura dele, a maioria dos comentadores "missed the point". Isto é o esperado da nossa sociedade atual, mesmo que, lamentavelmente, também em blogues progressistas. Há, no entanto, uma aceitação e suporte das ideias por mim definidas, como se diz em alemão "klein aber fein", um grupo pequeno ,porém bacanérrimo. Não podemos nos calar e não vamos nos ausentar de espaços, nós, mulheres, gays, judeus e outros, porque subliminarmente, ou mais explicitamente, não somos bem-vindos por tantos. 


segunda-feira, 10 de outubro de 2011






























Por favor ajude-nos.
Você já viu alguma representação gráfica de evolução humana?
Ou até hoje você só viu o Primeiro Sexo evoluindo?
Quando o Segundo Sexo evolui, o que ele evoca?


http://scifigeektees.com/results

terça-feira, 4 de outubro de 2011

quem ganha com a "polêmica" entre Rafinha e feministas?

       Escrevo em um momento em que ainda não é claro se foi ou em que medida foi uma armação a suspensão do Rafinha Bastos do programa CQC (para quem quiser se inteirar sobre o ocorrido, por favor leia a postagem da Lola). Para efeito de certa estratégia de conduta seria interessante que alguma(s) feminista(s) fosse malaca ou insider o suficiente para saber o que de fato se passa. Mas acho que ainda não apareceu uma que soubesse. Mas acredito que há um plano no qual isto não interessa. 
      Suponhamos que o dito cujo faça a sua "volta triunfal", por consequência de uma armação ou simplesmente porque o dinheiro falará mais alto - neste exato momento existe uma multidão pedindo a sua volta no twitter, talvez exatamente o que queria. Ele terá atingido o seu objetivo, e será uma personagem ainda mais midiática e heroica, com ares de mártir do "politicamente incorreto". Ele aumentará a adesão... entre aqueles que ele já atraía e alcançava, pelos meios que possui. 
          E nós, pobres feministas da nova geração, blogueiras ou não? É claro que todos estes eventos tendem a provocar uma maior coesão entre nós. Vai ser difícil achar alguém que discorde de que Rafinha e LTDA não sejam machistas e incitadores de machismo. Até aí, fica empatado - cada grupo tão pequeno ou tão agigantado quanto antes, ambos mais coesos do que antes. 
           Mas, e o pessoal que estava em cima do muro? Será que o Rafinha só aglutina, não se desgasta? Não acredito. Deve existir um grupo de gente para quem ele era razoavelmente indiferente e, pouco a pouco, ganhou motivos mais fortes para antipatizar com ele. Na noite em que a suspensão saiu, ou seja, a noite de ontem, muitos descontentes com ele apareceram no twitter. Muitos não tinham, a princípio, uma leitura feminista do fenômeno. Eu resolvi interagir com tuiteiros e indicar a postagem da Lola mencionada acima. Foi uma ótima experiência que eu pretendo repetir! Ela certamente ganhou leitores e eu conheci gente legal. 
       Neste movimento de "polêmicas" possivelmente pré-fabricadas pela mídia, os campos se definem melhor. As massas aglutinadas por personas midiáticas não são destituídas de poder por serem volúveis e pouco consistentes. A história mostra que não (e da pior maneira possível). Mas pequenos grupos com alta capacidade de organização e qualificação de seu discurso também não o são. Na minha avaliação, vale a pena entrar nestas confusões. Para dar a cara a tapa, aprender, aglutinar novas pessoas e, na medida do possível, qualificar o debate. Não estou falando de qualificar o discurso dos outros. Tenho muita consciência de que a interação me qualifica, e tenho sede por isto. Embora intuitivamente repugnada com o pseudo-humor do CQC eu tenho muitas questões abertas sobre se e por que meios se pode ou deve tentar limitar o discurso de alguém.

PS. Um fenômeno a princípio positivo (porém um pouco ambíguo) foi o Boris Casoy explodir  ontem à noite nos trending topics. Foram muitos os que se lembraram que nenhuma sanção foi imposta ao âncora quando ele ofendeu feio e sem nenhum motivo os garis. Pela lógica apresentada, a princípio estas pessoas acham errado ofender a Wanessa Camargo e também ofender uma mulher comum. Dá para trabalhar aí.

PS2. Este blog ainda vai virar uma espécie de "observatório" do mega-blog do Luís Nassif. Para variar, surpreendeu que o mesmo tenha resolvido não subir a questão de Rafinha para as postagens do Blog, apesar de vários leitores sugerirem isto. Foi meio anti-democrático, eu achei. 

domingo, 7 de agosto de 2011

Por que Arendt não era feminista?

ou... O intelecto feminino




Uma questão que cultivo há algum tempo é por que uma mente brilhante como a de Hannah Arendt não via sentido no feminismo. Ninguém - na minha opinião - viu como Arendt em toda a sua incrível complexidade, ambiguidade e circunstancialidade (acrescente todos os "ades") a condição judaica como ela. Quando penso na condição feminina eu, que sou mais versada na judia alemã do que em Beauvoir, sempre encontro paralelos que me parecem iluminados entre a condição judaica por ela retratada, e a condição feminina por mim vivida e observada . Ou seja, uma pessoa não-feminista é minha mestra em pensar minha condição. Claro, quem pode estar enganada sou eu. Mas vou lançar uma hipótese aqui, que teria que ser testada depois de leitura e reflexão. É algo meio intuitivo, que mistura o que apreendo da filósofa que não queria ser filósofa (e da não-feminista que tinha uma prática pra lá de feminista) e da minha vivência.

Às vezes, ladies and gentlemen, acreditamos nós mulheres que somos iguais aos homens. Às vezes acreditamos nisto por longo período, às vezes só em determinada circunstância. No entanto, como se pode facilmente provar por A+B, somos socialmente inferiores. Ou seja, quando nos cremos iguais, estamos inevitavelmente enganadas. É uma ilusão, não é?

E no que se baseia então este sentimento às vezes tão persistente e palpável?
Arrisco dizer que nas nossas vivências, às vezes durante curtos momentos, há igualdade, dentro de alguma redoma protegida pela sociedade maior. Naquele lugar, naquele momento, as regras do jogo são específicas. Grandes amigos de rendas diferentes lidam em muitas circunstâncias com esta diferença. Mas existem momentos em que eles são iguais. Podem ser fortuitos, mas são verdadeiros. No momento seguinte, tudo pode ser diferente. Mas naquele dado momento, são iguais. E este momento pode fazer o "socialmente inferior", ter clara noção que sua inferioridade não é pessoal.

Vejo dois traços na trajetória clássica para uma mulher se tornar feminista. Uma é sofrer na mão de homens/ estruturas machistas. E a outra é ter momentos de igualdade, mais ilusórios ou mais verdadeiros. Porque quem apenas sofre as estruturas, penso ter mais dificuldades para dizer a si mesmo que aquilo não é natural. Que não tem que ser assim. Que pode ser diferente. É a contradição que nos abre os olhos. Mulheres que são direto e reto tratadas mal são, na minha apreciação, aquelas mulheres machistas. Que regulam as outras pelo tratamento que lhes foi dado. Que não tem condições de ver que pode ser diferente. Para elas só existe crescer e vencer dentro das regras do machismo.

Apesar da massiva propaganda anti-semita, Arendt nunca se achou menos capaz. Muitos judeus sofreram com dúvidas a respeito de si mesmos, mas ela nunca balançou. Apesar de mulher num ambiente então ainda muito mais machista e predominantemente masculino do que hoje, ela jamais duvidou de si. Ela tinha a tranquilidade consigo mesma para aceitar ou rejeitar aspectos da teoria heideggeriana, Heidegger, o homem ariano. O homem ariano que foi um crápula com ela. E ela foi capaz da apreciação mais racional e isenta da obra dele. Por quê? Porque sua na intimidade nunca se deixou intimidar. A ameaça nunca era intelectual. Somente física. No ambiente ilustrado em que ela nasceu a judia Rosa Luxemburgo era A intelectual mais prezada, entre homens e mulheres. Arendt cresceu  olhando para o retrato dela.  Acabou tomando a condição e o destino judaicos como uma questão norteadora de seu desenvolvimento intelectual, pois a realidade a confrontou amargamente com isto.

E quanto a ser mulher? Talvez Arendt tenha projetado a sua segurança psicológica que, sabemos, é fruto da sua personalidade e do ambiente ilustrado em que viveu para o conjunto das mulheres, cuja grande maioria tinham tido experiências muito diversas da dela. Se ela jamais foi impedida de pensar "como um homem", se jamais duvidou da sua genialidade frente ao intelecto de um homem, por ter uma segurança de aço, porque as outras deveriam se acovardar? Se elas não estavam fisicamente ameaçadas (na leitura dela)? Querer para ela, neste caso, é poder. Uma pena. Ao mesmo tempo um certo consolo. Nem Arendt é perfeita...

Mas por que discorro sobre tudo isto? Porque há feministas que me dizem que não se deve dar mais crédito a um homem feminista do que a uma mulher feminista. Que esta seria uma atitude anti-feminista. Concordo que a auto-avaliação neste sentido é sempre bem-vinda, dado que a sociedade nos ensina a dar mais crédito a homens, e isto pode ser algo meio inconsciente. Concordo que a vivência sempre separa um homem de uma mulher.

Porém não tenho medo de, me auto-avaliando de vez em quando, dar razão a um homem em detrimento de uma mulher. Porque estou imbuída da confiança de igualdade de condições intelectuais, imbuída da confiança no meu intelecto. Há momentos em que eu, a mulher feminista, ele, o homem feminista e ela, a outra mulher feminista, somos iguais. E eu sou tão igual que posso julgar qualquer uma das três opiniões como a melhor. Posso pensar e mudar de ideia. A favor de cada um de nós. Confio, em última instância, no meu julgamento. Que é o julgamento de uma mulher. E isto, ladies and gentlemen, é uma atitude feminista. Hannah, você nunca se intimidou diante de um homem, a ponto de poder lhe dar razão. Você é um ícone do pensamento moderno. Você se importa, aí no seu túmulo, que eu re-signifique o seu exemplo como uma prática feminista? Acho que não. 

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

e se as moças forem idôneas? (mais sobre Assange e crimes sexuais)

Em seu aguardado post a Lola Aronovitch preferiu acreditar nas moças, que teriam alegado que Assange se nega a interromper uma relação sem camisinha.


Como escrevi lá,  o pressuposto  é para tod@s que não sabemos mesmo o que aconteceu. Só nos restam conjecturas. Lola resolveu acreditar nas moças, o que também é um caminho possível e provável. O que não podemos admitir - feministas e progressistas - é a lógica torta, que se vale de situações sem nenhuma clareza e de grande complexidade para 

1) invalidar o feminismo ou

2) invalidar a ação do wikileaks


quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Assange e a acusação de crime sexual

Anteontem, coincidência ou não, irrompeu entre mim e o André (apenas assim) uma longa discussão sobre o termo 'feminazi' no blog do Nassif. Durante a minha ausência umas tantas mulheres e alguns homens vieram ao meu socorro, outros tantos se posicionaram a favor do André, e portanto deste malfadado termo. O que pode ser conferido aqui . 
Coincidência mesmo, meu namorado e eu ontem traduzimos um texto em inglês escrito por Assange poucas horas antes de sua prisão, com o intuito de divulgar no blog do Nassif as idéias desta figura que agora acompanhamos com muito interesse, e eu em particular, já que sou crítica aos abusos das grandes máquinas estatais, que não cansam de matar milhares em nome de interesses duvidosos. O texto pode ser lido aqui
Coincidência ou não, hoje vem à tona (pelo menos para meu conhecimento, e dos leitores do blog do NAssif), o conteúdo das acusações das duas mulheres suecas contra Assange. Gostaria de lembrar que, mesmo que Che Guevara, Zapatero, Lula ou insira aqui o nome que você acredita poderia ser considerado um ícone da esquerda, fosse de fato responsável por um crime contra a mulher, eu jamais hesitaria em condená-lo pelo que ele realmente fez. No caso que envolve Assange e as suecas, aparentemente a questão está sendo usada para incriminar o fundador do Wikileaks. E é com este pressuposto que escrevi o post abaixo, já que a plausível má-fé de Anna levou o termo feminazi aos top ten de novo. Em caso de Assange realmente ter feito algo errado, muda toda a constelação. Aí vai o post escrito hoje há pouco, lá, cujo original se encontra aqui.  

Uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa. 
Homens e mulheres de má fé há incontáveis no mundo. Homens e mulheres que trabalham para a CIA também (mais homens, diga-se de passagem), também. 
A mim parece que, se se confirma que a Anna Ardin de fato montou esta presepada por má fé, a despeito de sua auto-declaração, não pode ser jamais considerada feminista, pois agir em egoistamente em interesse próprio não é ser feminista. Ela não representa nenhuma corrente do feminismo que defende vingança ao gênero masculino por meio de falsas acusações sexuais. Aquilo pelo que as feministas mais lutam é que os milhares de abusos reais sofridos por mulheres sejam levados a sério. Nada seria mais contra-produtivo. 
As referidas leis suecas (não se poderia transar com duas mulheres na mesma semana), se existem mesmo, definitivamente não estão ancoradas em pressupostos feministas, mas antes possivelmente em pressupostos puritanos. Entre em qualquer comunidade feminista do orkut e peça para que as mulheres delas julguem esta lei. Todas dirão em coro: absurda, risível (as lésbicas e bi ficarão tanto mais atordoadas por não poderem transar com duas moças na mesma semana). 
Nunca é demais pedir que prevaleça o bom senso. Parece haver um círculo de homens (e algumas mulheres também) que está à espreita para bradar "feminazi" ao menor deslize que uma mulher cometa em nome do feminismo. É esperto de criminosos corriqueiros correr atrás de uma bandeira popular como salvaguarda, e definitivamente não é a primeira vez que isto aconteceria. Mas isto invalidaria a luta pelo fim do apartheid? pelos direitos civis? pela independência da Índia? Não, este fenômeno não 'nazicifica' o movimento. 
Digo mais: se é fato que a moça trabalha para a CIA, e que não houve entre ela e Assange nada além de intercurso consentido, então me parece engenhoso por na boca dela que ela seria "feminista" (ou escolher alguém com este perfil para cooptar). 
Matam-se assim dois coelhos com uma cajadada. O Assange e a reputação do movimento feminista. Como se estes dois termos fossem opostos, como se não pudesse defendê-los ao mesmo tempo. É a velha tática de dividir e confundir para dominar. O feminismo pertence ao espetro progressita/ de esquerda e este espectro não faz sentido sem o feminismo (não passaria de pura hipocrisia). E a CIA quer a esquerda e o progressismo fragmentados. Quer que movimentos sociais sejam tomados por terroristas. E movimentos feministas tomados por nazistas. 
O termo 'feminazi' tem como único intuito de confundir e dividir. Jamais nos esqueçamos disto. 

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Sobre Postes e Postes

Um dos bordões que deveriam descredenciar a candidata do PT nestas eleições é a de que ela seria "um poste". Confesso que demorei um pouco para entender o que seria "um poste". Estava mais acostumada com figuras como o boneco de ventríloco, ou como a marionete. Aliás, marionete não teria emplacado mais? Afinal, postes não falam. E Dilma fala. Marionetes e bonecos de ventrílocos representam papéis estipulados por outrem. A dissolução deste estigma wanna-be (ao menos para o público que tem o mínimo de empatia com as transformações que estão se dando no Brasil e com as mulheres) aconteceu, na minha opinião, em parte no horário político eleitoral, quando, acertadamente na minha opinião, optou-se por não engessar demais a candidata. Sequer os "achismos" dela foram editados. Editados! Quer dizer, no vídeo editado você pode recortar os candidatos, assim como os fatos, a seu bel-prazer. E a
opção não foi esta. Aquela história de "acho isto, acho aquilo" foi a primeira que me irritou. Parecia-me um sinal de insegurança onde não poderia haver alguma. Perdurou por um tempo... e foi embora. Esvaneceu-se em meio à impressão de sinceridade e à identificação com o projeto político. Acredito que se eu tivesse identificação com a proposta política de Serra veria o seu sorriso aterrorizador apenas como um charme excêntrico. Mas como este não é o caso... Tudo isto para falar do poste. Cadê o poste que estava aqui? Dilma acertadamente bateu na tecla que apontava a incoerência lógica do adversário, que ora a apontava como terrorista maquiavélica, ora como objeto inanimado. Não teria sido melhor pintá-la como "a sonsinha da guerrilha"? Ou então apenas como o demônio disfarçado de gente, que manipula até o presidente Lula? Creio que a Dilma caricata talvez pudesse ter feito mais sucesso como vilã de novela. Mas os dois, ao mesmo tempo, é difícil.
É claro a incoerência proposta pela oposição tem suas raízes estruturais, por assim dizer. Qualquer mulher cai potencialmente bem no papel de vilã de novela. Bruxa destruidora de lares. Por outro lado, nunca tem autonomia suficiente, intelectual, política, a não ser, é claro, a autonomia de prejudicar os outros por puras vontades  irracionais, que em nada se parecem com o desejo de poder legítimo, óbvio, natural e sacralizado do homem. Ou seja... à mulher cabe também o papel do poste. De laranja natural do projeto de algum pintudo.

É por isso que cheguei a temer, quando da súbita, bizarra e reprovável candidatura Weslian Roriz que este fosse um golpe simbólico mais do que apenas um golpe roriziano infantil. Ao expor Weslian como a eterna poste, a eterna falta de autonomia feminina, o segundo sexo, o poste sem luz, Roriz falaria "no fundo, são todas iguais e todas nos pertencem, cada uma delas a cada um de nós". Mais distante daquele momento, pude proclamar aliviada a minha paranóia. Não chegou a meu conhecimento que Weslian fosse igual a Dilma. Acredito que os detratores se encantaram mais pela Dilma destruidora de lares, e deixaram o estereótipo da dona-de-casa inepta e apendicular de lado.
Não vinha de Roriz, pouco antes e pouco depois de pleito, o ataque simbólico que eu esperava. Mas vinha do Estado de São Paulo. "Presidente 'de fato' da Argentina morre", dizia quando do falecimento de Kirchner. Fiquei pasma com a cara-de-pau do veículo. Depois do pleito: "Lula vence outra vez". Em menos de 10 dias as duas maiores mulheres da América Latina (quem sabe de sua história inteira) eram jogadas no lixo. Não era uma questão de dar a César o que é de César, enfantizando o papel de Nestor e Lula na eleição de ambas. Era um puro "vocês não existem e não tem mérito algum". Algum. Lendo o Estadão tem-se a nítida certeza de que cristina foi eleita porque havia um impedimento legal para que Nestor o fizesse, o que não foi o caso. O casal decidiu lançar a candidata, assim mesmo. No caso de Lula e Dilma, em que havia um impedimento legal, ele não lançou sua esposa Letícia, que seria certamente a Weslian da história. Mas uma mulher duas vezes ministra. Isto não parece fazer diferença para o Estado, para quem todas, afinal, são segundo sexo e ponto.

Para finalizar a questão, que não é trivial nem pouco, falo de um verdadeiro poste que tive o (des)prazer de conhecer. Ou melhor, a boneca de ventríloco, dado que discursava pelos cotovelos. Quem compartilhou comigo do ambiente político da UNICAMP na primeira metade da década que se despede em breve saberá a quem me refiro. Nomes não são necessários. Necessária é a história. De dois machinhos ególatras, carinhosamente apelidados de Trotsky e Stalin, e que elegeram "uma mulher" para vereadora da cidade de Campinas. Primeiro costuraram sua candidatura no interior do grupo que apoiava uma perspectiva de universidade que mesmo hoje, traumas políticos à parte, não abandonei. Fizeram-no da seguinte forma. Conversaram com cada qual, perguntando o que se considerava da candidatura. Não com todos, mas com a maioria. A minoria julgada menos importante teria de fato uma surpresa durante a reunião em que a questão seria 'debatida'. Mostrei-me refratária não ao projeto em si, mas à falsa democracia e ao falso respeito. Na época, procurei articular um grupo que contestasse o ignomínia do processo. Mas o grupo tinha anseios diferentes e também percorreu caminhos diferentes, estilhaçou-se sem conseguir fazer frente ao núcleo manipulador e continuar "a luta". Ou então conseguiu, à sua maneira, de certa forma recomposto tempo depois. Mas aquele não era o seu tempo, para o meu desapontamento, mas que eu tive de respeitar, porque querer "acelerar o processo" é muitas vezes o nome que se dá a estes tratoramentos em nome de algum projeto.

Por que o "poste" feminino era o sonho de consumo do machinho maquiavélico (na sua acepção menos nobre)? Porque poderia explorar sua imagem política e até mesmo sexual (a candidata foi visivelmente sexualizada durante a campanha) sem ônus próprio. Porque dava uma carinha de progressismo (vejam, uma jovem líder mulher de origem pobre!) a um projeto que se autointitulava de esquerda, mas aquela esquerda que não acha que a igualdade se forja no processo nem que vale tanto quanto para as mulheres. Porque em caso de sucesso político, se viria com o poder nas mãos. Mas no caso de fracasso poderia ir vampirar outro poste. A mulher em questão não era desprovida de méritos. Mas eram os méritos típicos das mulheres tradicionais: a cooperação irrestrita que sinaliza a subserviência, a tomada de projeto alheio como se fosse seu, e o quase orgulho em exercer estas funções.

Alguma moral da história? Apenas indicações. Não recusemos bons quadros mulheres só porque bizarramente representam uma exceção em uma estrutura dominada por homens (o número de 90% de parlamentares do sexo masculino indica isto). Mas o fato de a estrutura ainda ser tão desfavorável faz com que haja mulheres de várias procedências no jogo político. Mulheres neste caso representam não uma unidade e uma identidade, mas o avesso uma da outra. Encarnam, cada qual, uma das facetas das contradições do processo lento, conturbado e cheio de idas e voltas da nossa emancipação.